BIOECONOMIA VIABILIZA NOVAS PROTEÍNAS

Autor: Sérgio Adeodato

O desenvolvimento de alimentos com proteínas alternativas estimula o desenvolvimento local na Amazônia e políticas que mantenham a floresta viva. Mas é preciso conectar produção com consumo e fazer com que a maior parte da renda permaneça na região

Arte: Chermie Ferreira

Tenébrio e Spirulina formam um par perfeito, mas não fizeram parte do bando de Lampião e Maria Bonita. Ele está longe de ser tenebroso e assustador, como o nome pode indicar; e ela é ícone do corpo atlético e bem cuidado. Um é inseto, mais especificamente um besouro. A outra, uma microalga, com características similares às primeiras formas de vida que habitaram o planeta há 3,5 bilhões de anos. O que têm em comum? Além do alto teor de proteína que carregam, as duas espécies – cultivadas mundo afora com aplicações industriais – permitem inferir o tamanho da riqueza escondida na biodiversidade, em especial da Amazônia, ainda a ser desvendada.

Não à toa, o Brasil é reconhecido pelo grande potencial de mercado para a chamada “proteína do futuro”, tema que movimentou o debate no Fórum de Inovação em Investimento na Bioeconomia Amazônica, no painel Future Trends: proteínas alternativas e a biodiversidade amazônica. “Já temos o conhecimento tradicional como base para escrever uma nova história, por meio da bioeconomia e inovação, buscando uma rede de produção de alimentos com maior impacto positivo”, afirma Gustavo Guadagnini, diretor executivo do The Good Food Institute (GFI) no Brasil, organização que abriu programa de pesquisas sobre ingredientes vegetais da Amazônia.

Se a spirulina compõe suplementos alimentares de larga venda na internet para malhação na academia, autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2018, os tenébrios – ou bichos-da-farinha – são mais usados como ração animal. Mas, após aprovação para consumo humano no mercado europeu, as larvas do inseto já compõem até chocolates de alto teor nutricional: o “Choconébrio”, com 40% de proteína. Além de alimento funcional, a espécie é reproduzida por empresas como insumo para decompor resíduos orgânicos da indústria – a exemplo do que faz outro inseto, a mosca soldado negra, pesquisada na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) com essa finalidade.  

No mundo, segundo dados da ONU, a agricultura ocupa um terço do planeta, sendo 45% para produção de alimentos e 33% de ração animal, e o crescimento populacional impõe a busca de fontes alternativas, inclusive no contexto da mitigação climática. O tema coloca a maior floresta tropical do planeta sob holofotes. “Trata-se de uma enorme oportunidade, pois o mercado global para produtos amazônicos é de cerca de US$ 166 bilhões e o Brasil participa com apenas 1,6%”, ressalta Joanita Karoleski, presidente do Fundo JBS pela Amazônia, criado há nove meses.

O plano é investir R$ 250 milhões nos primeiros cinco anos, com previsão de R$ 1 bilhão até 2020, em pilares como restauração e conservação da floresta, desenvolvimento socioeconômico em cooperação com comunidades e ciência e tecnologia. Atualmente, a ênfase está no apoio a iniciativas de Sistema Agroflorestal (SAF) com cacau associado à pecuária, além de fomento à cadeia produtiva do açaí e pescados, principalmente do pirarucu, levando crédito a pequenos produtores.

“O trabalho é conhecer os desafios e identificar onde podemos criar novas oportunidades”, explica Karoleski, durante o debate sobre proteínas alternativas a partir de cadeias produtivas da bioeconomia, visando o desenvolvimento local e políticas que mantenham a floresta em pé.  A principal questão, segundo ela, é “conectar produção com consumo e deixar maior renda na região”.

Nos laboratórios da Ufam, em Manaus, a pesquisadora Ariane Kluczkovski lidera estudos voltados a viabilizar proteínas da biodiversidade amazônica – principalmente farinha proteica de jacaré e leite em pó de castanha-do-brasil, espécie à qual tem dedicado décadas de pesquisas sobre o valor nutricional. A cada 100 gramas, a amêndoa fornece 14,5 gramas de proteína, contra 3,38 gramas no caso dos ovos.

“Resta saber como viabilizar o produto junto aos extrativistas”, diz a pesquisadora, propondo fomentar redes de comunidades ribeirinhas para replicar tecnologias. “Não adianta só ter estrutura, mas também envolvimento local, com visão das lideranças para outras possibilidades”, completa.

Além de limitações técnicas, como falta de energia e equipamentos, é preciso superar logística de escoamento e aspectos legais. De acordo com Kluczkovski, o cenário exige ainda “fixar os mais jovens nos castanhais, diante do atual processo de êxodo para as cidades”. Para isso, recomenda, há um elemento estratégico: a internet e o empreendedorismo, com apoio à capacitação em novos produtos, para que fiquem na floresta. “Temos que repensar o que é sustentável como pesquisador e consumidor, não só com visão de escala, mas com propósito, porque devemos fazer algo diferente.”

Isso inclui valorizar a lógica dos povos originários. “As tradições estão sendo esquecidas devido à influência cultural que hoje se agrava pela ação das igrejas nas aldeias”, adverte Josiane Tikuna, à frente do Projeto AgroVida Naãne Arü Mãü -Terra e Vida. A iniciativa busca resgatar a culinária, o uso de plantas medicinas e a agricultura familiar indígena, nas regiões do Alto e do Médio Solimões, no Amazonas. “Não podemos deixar morrer práticas milenares que aproveitam alimentos disponíveis ao redor, na floresta, sem perdas ou desperdícios”, enfatiza a liderança.

Ela conclui: “É importante saber de que forma podemos trabalhar em conjunto e contribuir com o que temos nas comunidades. Já há envolvimento e organização, o que falta é apoio. De um lado, a ciência ganha força e, de outro, as comunidades ganham visibilidade e renda”.

“Há muito potencial com produtos ainda não estudados”, aponta Rodrigo Carvalho, co-fundador da Positive Brands, dona de marcas como A Tal da Castanha – no caso, do caju, vindo da agricultura familiar, com certificações socioambientais. Neste ano, a empresa investiu R$ 5 milhões no lançamento da marca Possible, de bebidas vegetais mais acessíveis. O objetivo é promover saúde com impacto social e ambiental positivo, por meio da alimentação à base de ingredientes orgânicos brasileiros, presentes em marketplace.

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