FORMAR PARA CONSERVAR

Autor: Eduardo Geraque

Especialistas destacam a necessidade de investir em conhecimento e inovação para gerar novos talentos em bioeconomia, em sintonia com as demandas do século XXI

Arte: Kambô

Conhecimento e visão inovadora são essenciais para que modelos de negócios alinhados à conservação da biodiversidade frutifiquem. Por isso, conforme debatido no painel Formação em Bioeconomia Amazônica, realizado durante o Fórum de Inovação em Investimento na Bioeconomia Amazônica (F2iBAM), esses elementos precisam estar presentes em qualquer processo voltado para a formação de recursos humanos, desde a educação básica até a universidade.  

“Nós não temos um modelo claro do que pode ser aplicado em grande escala na Amazônia para aliar negócios e conservação. As estratégias de desenvolvimento precisam incorporar esses pontos”, afirma Luís Fernando Laranja, diretor da Kaeté Investimentos. Segundo ele, ao tentar incorporar o mundo real na formação de talentos que vão lidar com os desafios da bioeconomia, o norte do processo precisa ser claro.

“Temos de tirar o foco de modelos de pequena escala e muito pontuais. A indústria da soja e a da pecuária, por exemplo, sem nenhuma crítica, têm um modelo claro. O que está ocorrendo em Alta Floresta ou na divisa com Tocantins e Maranhão é impressionante. Desenvolver modelos alternativos mais sólidos, robustos e com escala tem muito a ver com a questão da formação”, afirma Laranja. Para o executivo, é fundamental que ocorra um investimento em recursos humanos que tenham essa visão moderna da Amazônia, para que o empreendedorismo e a conservação da biodiversidade ocorram concomitantemente.

Se a visão inovadora é importante – Laranja citou o caso de uma empresa que produz carvão ativado para filtros de água a partir do babaçu que fatura hoje R$ 30 milhões –, o conhecimento qualificado também é outro pilar que deve existir na formação dos jovens.  

“Biodiversidade é o maior tesouro que o Brasil tem. A maneira de abri-lo é com o conhecimento, não tem outra forma”, afirma Claudio Pádua, professor da escola de pós-graduação do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). A instituição de educação, que oferece um mestrado profissional e um MBA, formou mais de 200 pessoas até hoje. “Demoramos uns 15 anos para formar professores para o MBA”, diz.

Segundo o biólogo e administrador, o Brasil precisa de escala para conseguir dar conta de atender a demanda de formação de profissionais voltados para a biodiversidade. “Existe a necessidade de muitos cursos. Todas as escolas poderiam se juntar e formar uma nova escola para o desenvolvimento da Amazônia com base no conhecimento”, afirma Pádua. Segundo ele, quase todas as empresas mais valorizadas hoje no mundo são da era do conhecimento.

“O jovem brasileiro pensa na Califórnia, no desenvolvimento tecnológico. Os jovens americanos, por exemplo, estão mais de olho na biodiversidade. Precisamos aqui mudar essa cultura para que a bioeconomia da Amazônia se desenvolva de forma mais sustentável”, afirma.

A Pró-Reitora de Planejamento da Universidade do Estado do Amazonas, Maria Olivia Simão, também defende que uma nova premissa conduza a formação de jovens que vão lidar com a Amazônia. “Inovação e negócios não são pecados. Não existe problema algum em agregar conservação e faturamento”, afirma a também professora da Rainforest Social Business School, ligada à UEA.

Além de criar uma nova cultura a favor da inovação e sustentabilidade, Simão lembra que a formação de recursos humanos em áreas remotas da Amazônia enfrenta obstáculos ligados à infraestrutura. “As políticas públicas precisam resolver a questão da conectividade, da água e da energia”, diz.

Voltado principalmente para a questão da formação de talentos, o professor Foster Brown, da Universidade Federal do Acre (UFAC), apresenta-se como um “problemólogo”, que está sempre procurando soluções para os problemas da região. Segundo ele, as formações de talento no século XXI precisam estar voltadas para a bioeconomia, sem dúvida, ainda mais na Amazônia. “O aprendizado nessa área tem que ser visto como algo contínuo. Todos devem ter um entendimento básico de como a Amazônia funciona. O empreendedorismo, por exemplo, é algo que pode ser desenvolvido”, afirma Brown.

Para ele, algumas capacitações, como o ensino de línguas, seja o português, o inglês e o espanhol precisam ser trabalhados, inclusive, desde o ensino básico. “Existem ainda muitos gargalos que impedem a integração de saberes”, afirma. A crise climática, diz o professor da UFAC, deixa a situação ainda mais crítica. “Não temos muito tempo”.

A seguir, as sistematizações gráficas do painel:

Clara Daré

Acompanhe a programação dos próximos painéis e reveja os anteriores no canal do YouTube da Página22.

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