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Autor: Andrea Vialli

Paciente como o crescimento das árvores nativas, capital de longo prazo é aposta para destravar investimentos em regeneração florestal

Arte: Kambô

No universo dos investimentos, o termo capital paciente – novo nome para o aporte de recursos de longo prazo – vem ganhando destaque, especialmente entre os fundos e gestoras com foco em impacto socioambiental. A expressão não poderia se adequar melhor aos negócios de expansão e recuperação das áreas de florestas nativas que começam a ser estruturados. Uma árvore endêmica da Amazônia, como o angelim-vermelho, ou da Mata Atlântica, como o jequitibá-rosa, leva em média entre 20 e 30 anos para completar seu ciclo de crescimento.

A atração de investidores para negócios florestais de longa maturação ainda é um desafio, mas há oportunidades com as perspectivas de precificação do carbono e de outros serviços ecossistêmicos, de acordo com os participantes do painel sobre o tema, que abriu o quinto dia Fórum de Inovação em Investimentos na Bioeconomia Amazônica (F2iBAM).

Um exemplo desse potencial vem do sul da Bahia, onde nasceu a Symbiosis Investimentos, empresa que criou um modelo de negócios inovador a partir da restauração florestal com espécies da Mata Atlântica para a produção de madeira nobre, com extração por meio de manejo sustentável. São árvores como peroba-rosa, ipê-felpudo, jacarandá e louro, que são cultivadas junto com outras três exóticas (cedro australiano, mogno asiático e mogno africano) em sistema de consórcio com 60% de área de produção e 40% destinadas à conservação.

“É como um portfólio de ações, mas com 20 espécies de árvores com diferentes usos e uma perspectiva de longo prazo que se mostrou resiliente mesmo durante a pandemia, já que o preço da madeira no mercado internacional dobrou”, diz Bruno Mariani, CEO e cofundador da Symbiosis Investimentos.

Mariani, que fez carreira no setor financeiro e presidiu o conselho do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), criou a empresa em 2008, partindo do princípio de que o País é um importante produtor de florestas plantadas para celulose e papel, mas havia pouco interesse no plantio de nativas.

A partir de uma extensa pesquisa junto a universidades, ele viu a oportunidade de criar um modelo de produção que não fosse monocultura, e tivesse investimento em melhoramento genético, aumento da produtividade das nativas e manejo seletivo – ao mesmo em que produz espécies de alto valor no mercado de madeiras, restaura áreas de Mata Atlântica que estavam degradadas em Porto Seguro (BA) e gera serviços ambientais. “O material selvagem, sem melhoramento genético, dá uma rentabilidade de 12% ao ano, que é auditada desde o início das operações”, diz Mariani. Daqui a dez anos, com a maturidade dos plantios, o empreendedor estima que a Symbiosis alcançará rentabilidade de 20% ao ano.

Da Costa Rica vem outro exemplo de restauração florestal com recursos privados. A empresa alemã BaumInvest compôs três fundos de equity, em um total de € 36 milhões, para viabilizar o reflorestamento de áreas de pastagens degradadas e o manejo sustentável de uma área de 2.060 hectares no norte da Costa Rica. A empresa adquire essas áreas, realiza a recuperação ambiental, e negocia créditos de carbono com outras companhias que queiram compensar suas emissões de gases de efeito estufa.

De acordo com Ana Mohr, diretora da BaumInvest, são escolhidas 17 espécies de árvores nativas com crescimento de longo prazo e valor comercial para manejo, tais como cedro e cumaru, além de duas exóticas (teca e mogno). “Embora as áreas sejam privadas, as reduções de emissões entram na linha de base do governo da Costa Rica e são consideradas no cálculo de emissões do país. Isso confere segurança jurídica aos projetos”, explica Mohr (saiba mais neste vídeo).

Atrair investidores para projetos florestais de longo prazo que beneficiem também os pequenos agricultores na Amazônia depende de novos arranjos de financiamento e políticas públicas que os tornem viáveis. Exemplos são o Pronaf, programa do governo federal de fortalecimento da agricultura familiar, que fornece financiamentos com taxas de juros médias de 0,5% ao ano; o mecanismo tributário do ICMS ecológico – que permite maior repasse de recursos a municípios que contribuem com a preservação ambiental; e a recém-aprovada lei de pagamento por serviços ambientais. Para Erika de Paula Pedro Pinto, coordenadora de projetos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), são políticas públicas que já existem, mas precisam ter seus mecanismos destravados para gerar resultados.

No caso do Pronaf, entre 2013 e 2018 apenas 13% do total de recursos foi direcionado para os estados da Amazônia Legal, sendo que 1% foi alocado nas linhas “eco” do programa, que beneficiam atividades de baixo carbono e restauração. É pouco para um universo de 607 mil pequenas propriedades da Amazônia que poderiam se beneficiar com o recurso. “Apenas 8,8% dos agricultores familiares da região Norte acessaram serviços de assistência técnica e extensão rural. A política pública está bem desenhada, mas o recurso não é procurado e não chega na ponta”, diz Pinto.

Um projeto realizado pelo Ipam no leste do Pará entre os anos de 2012 e 2017, amparado pelo Fundo Amazônia, demonstra que, com os recursos bem alocados, é possível tanto melhorar a renda das famílias quanto conter o desmatamento. A iniciativa permitiu a regularização no Cadastro Ambiental Rural (CAR) para 2.700 famílias e, dentro desse universo, 630 famílias receberam assistência técnica e 300 tiveram acesso a recursos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).

Nos cinco anos do piloto, que teve foco em diversificação produtiva com agricultores locais, implantação de sistemas agroflorestais e recuperação de áreas, houve redução do desmate de 79% nas propriedades, sendo que nas que receberam os recursos do PSA essa queda chegou a 83%; já o aumento da renda bruta das famílias foi de 135%, em comparação com a linha de base de projeto.

Já que apenas 1% do Pronaf vai para projetos de restauração e adequação ambiental nas pequenas propriedades, o caminho do capital paciente surge como uma possível solução, na visão de Patrícia Daros, diretora de operações do Fundo Vale. Com doze anos de atuação na Amazônia, o fundo foi criado e mantido pela mineradora como um veículo de investimento social privado, mas foi incorporando novos arranjos financeiros, com atração de outros investidores.

A partir de 2016 o fundo passou a utilizar uma estratégia focada no fomento e investimento em negócios e soluções de impacto socioambiental positivo. “Tomamos o caminho de investir com a perspectiva de retorno financeiro e de fomentar esses negócios, e uma das estratégias mais importantes é destravar o capital financeiro”, diz Daros. Já foram investidos R$ 135 milhões em 70 projetos.

Entre outras iniciativas, o Fundo Vale apoia o programa de aceleração Parceiros pela Amazônia (PPA), que oferece mentoria e recursos para negócios de impacto na Amazônia; e o P&D de Nativas, que vem testando diferentes modelos de sistemas agroflorestais em cinco diferentes territórios do País, com o objetivo de recuperar 100 mil hectares até 2030 – em 2020 foram recuperados 1.050 hectares e investidos recursos em duas startups florestais, segundo Daros. Para este ano estão previstos mais 5 mil hectares e investimentos em cinco novos negócios.

A seguir, as sistematizações gráficas do painel:

Clara Daré

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